Há uma mulher que a gente vai deixando para depois. Não por descuido, mas por sobrevivência. Ela fica de lado quando a lista de tarefas cresce, quando alguém precisa de colo, quando a casa pede ordem e o trabalho pede entrega. Ela espera. E, com o tempo, aprendemos a esperar tão bem que quase esquecemos que ela ainda está lá.
Essa é a mulher que sonhava outra profissão, mas escolheu a segurança. A que guardou o vestido novo para uma ocasião que nunca chegou. A que quis dizer não e disse sim, de novo. A que adiou o próprio desejo tantas vezes que o adiamento virou hábito.
Cuidamos de todos. Esquecemos de perguntar quem cuidava dela.
Aprendemos a administrar a casa. Perdemos a prática de administrar os próprios sonhos.
Ficamos fortes para os outros. Ficamos estranhas para nós mesmas.
#semfiltro: às vezes, o que chamamos de “falta de tempo” é, na verdade, falta de coragem para admitir que ela ainda está esperando e que continuar adiando dói mais do que enfrentar o reencontro.
A poeta Cecília Meireles escreveu, no poema “Reinvenção”, que “A vida só é possível reinventada”, como se existir de verdade fosse, sempre, um gesto de recomeço (Cecília Meireles, “Reinvenção”, em Vaga Música, 1942). Talvez o reencontro com essa mulher seja exatamente isso: não voltar ao que ela era, mas reinventar quem ela pode ser agora, com tudo o que aprendeu enquanto esperava.
E se, hoje, você parasse por um instante e perguntasse: o que era importante para mim antes de eu aprender a adiar?
Na Verse, acreditamos que voltar para si não é resgatar o passado. É reconhecer quem você se tornou, e abrir espaço para que essa mulher, enfim, apareça.
Que você se reencontre. Sem pressa, sem culpa. Só presença.